Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2008

A Importância do Gato na Meditação

por Paulo Coelho

Um grande mestre zen-budista, responsável pelo mosteiro de Mayu Kagi, tinha um gato que era sua verdadeira paixão na vida. Assim, durante as aulas de meditação, mantinha o gato ao seu lado – para desfrutar o mais possível de sua companhia.
Certa manhã, o mestre – que já estava bastante velho – apareceu morto.
O discípulo mais graduado ocupou seu lugar.
– O que vamos fazer com o gato? – perguntaram os outros monges.
Numa homenagem à lembrança de seu antigo instrutor, o novo mestre decidiu permitir que o gato continuasse freqüentando as aulas de zen-budismo.
Alguns discípulos dos mosteiros vizinhos, que viajavam muito pela região, descobriram que, num dos mais afamados templos do local, um gato participava das meditações. A história começou a correr.
Muitos anos se passaram. O gato morreu, mas os alunos do mosteiro estavam tão acostumados com a sua presença que arranjaram outro gato. Enquanto isso, os outros templos começaram a introduzir gatos em suas meditações: acreditavam que o gato era o verdadeiro responsável pela fama e a qualidade do ensino de Mayu Kagi, e esqueciam-se de que o antigo mestre era um excelente instrutor.
Uma geração se passou, e começaram a surgir tratados técnicos sobre a importância do gato na meditação zen. Um professor universitário desenvolveu a tese – aceita pela comunidade acadêmica – de que o felino tinha a capacidade de aumentar a concentração humana e eliminar as energias negativas. E assim, durante um século, o gato foi considerado parte essencial no estudo do zen-budismo naquela região.
Até que apareceu um mestre que tinha alergia a pêlos de animais domésticos e resolveu tirar o gato de suas práticas diárias com os alunos.
Houve uma grande reação negativa – mas o mestre insistiu na decisão. Como era um excelente instrutor, os alunos continuaram com o mesmo rendimento escolar, apesar da ausência do gato.
Pouco a pouco os mosteiros – sempre em busca de idéias novas e já cansados de ter que alimentar tantos gatos – foram eliminando os animais das aulas. Em 20 anos surgiram novas teses revolucionárias – com títulos convincentes como “A importância da meditação sem o gato”, ou “Equilibrando o universo zen apenas pelo poder da mente, sem a ajuda de animais”.
Mais um século se passou, e o gato saiu por completo do ritual de meditação zen naquela região. Mas foram precisos 200 anos para que tudo voltasse ao normal, já que ninguém se perguntou, durante todo esse tempo, por que o gato estava ali.
Um escritor, que depois de séculos tomou conhecimento desta história, deixou registrado no seu diário:
“E quantos de nós, em nossas vidas, ousam perguntar: por que tenho de agir desta maneira? Até que ponto, naquilo que fazemos, estamos usando ‘gatos’ inúteis, que não temos coragem de eliminar, porque nos disseram que ‘gatos’ eram importantes para que tudo funcionasse bem?”
publicado por David Silva às 00:31
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